Jornalistas ou produtores de conteúdos?

Jornalistas ou produtores de conteúdos?

“Os jornalistas que escrevem para marcas podem continuar a ser chamados jornalistas? Isso interessa?”A pergunta é feita por Joe Pulizzi, fundador do Content Marketing Institute e surge no contexto de um debate que discutia a ideia de que os jornalistas que escrevem para marcas não poderem ser apelidados de jornalistas.

O que é que define, afinal, um jornalista? É a sua formação e experiência, é a natureza do seu trabalho ou o facto de trabalhar para um media? Se não produz informação para um media, mas sim para uma marca, um profissional com formação e experiência em jornalismo deixa automaticamente de ser jornalista? E passa a chamar-se como: produtor de conteúdos ou copywriter?

As respostas a estas perguntas não são fáceis, como explica o próprio Pulizzi, surgindo numa altura em que cada vez mais jornalistas estão a ser confrontados com a alternativa profissional de trabalhar para marcas que apostam em projetos de conteúdos. E não só. Os próprios órgãos de comunicação social estão a encontrar cada vez mais alternativas de receita na produção de conteúdos para marcas, que usam o nome e os leitores destes media para chegarem ao seu público-alvo. Os conteúdos vêm rotulados como ‘Conteúdo Patrocinado’ e podem ser encontrados em websites ou mesmo em publicações impressas.

Perante a necessidade de encontrar profissionais que trabalhem para estas novas áreas, muitos jornalistas foram colocados perante esta opção. As suas capacidades e competências são uma mais-valia quando se trata de saber contar uma história ou de saber informar. Isso é claro. A verdade é que, ao trabalharem para uma publicação (online ou offline) de um marca e que tem fins comerciais, estão a ser abarcados pelas incompatibilidades definidas no Estatuto do Jornalista e aplicadas pela Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, a entidade que emite as carteiras profissionais de jornalista.

 

O que dizem as regras?

 
A Comissão da Carteira Profissional rege-se pelas regras do Estatuto do Jornalista: é considerado jornalista quem tem como ocupação principal e remunerada o tratamento de informação com fins informativos, excluindo-se os casos em que estas funções são exercidas para publicações com intuitos comerciais. Ou seja, mesmo estando a trabalhar com fins informativos, o facto de o estar a fazer para um publicação que promove uma marca cria incompatibilidades com o título da carteira profissional de jornalista.
 

Artigo 1º do Estatuto do Jornalista
  • 1 – São considerados jornalistas aqueles que, como ocupação principal, permanente e remunerada, exercem com capacidade editorial funções de pesquisa, recolha, seleção e tratamento de factos, notícias ou opiniões, através de texto, imagem ou som, destinados a divulgação, com fins informativos, pela imprensa, por agência noticiosa, pela rádio, pela televisão ou por qualquer outro meio eletrónico de difusão.(…).
  • 2 – Não constitui atividade jornalística o exercício de funções referidas no número anterior quando desempenhadas ao serviço de publicações que visem predominantemente promover atividades, produtos, serviços ou entidades de natureza comercial ou industrial.
    (…).

O Estatuto do Jornalista enumera ainda uma série de incompatibilidades com a função de jornalista, nomeadamente funções na área de marketing e comunicação.

Artigo 3º do Estatuto do Jornalista

1 – O exercício da profissão de jornalista é incompatível com o desempenho de:

 

  • a) Funções de angariação, conceção ou apresentação, através de texto, voz ou imagem, de mensagens publicitárias;
  • b) Funções de marketing, relações públicas, assessoria de imprensa e consultoria em comunicação ou imagem, bem como de planificação, orientação e execução de estratégias comerciais;
  • c) Funções em serviços de informação e segurança ou em qualquer organismo ou corporação policial;
  • d) Serviço militar;
  • e) Funções enquanto titulares de órgãos de soberania ou de outros cargos políticos (…), bem como funções de assessoria, política ou técnica, a tais cargos associadas;
  • f) Funções executivas, em regime de permanência, a tempo inteiro ou a meio tempo, em órgão autárquico.
 
Há algumas exceções: os jornalistas estão a autorizados a fazer promoção de algumas atividades em regime de voluntariado e não remunerado, quando estão em causa atividades de interesse público ou de solidariedade social e também atividades informativas do órgão de comunicação social para o qual trabalham.

 

O conteúdo patrocinado

 
E no caso daqueles que trabalham para órgãos de informação e publicações independentes, produzindo os chamados conteúdos patrocinados? Trabalham para um órgão de comunicação independente, mas o seu trabalho está ao serviço de uma marca, que paga para poder publicar os seus artigos. Neste caso, a Comissão da Carteira também considera que deve haver uma separação nas redações entre quem produz informação independente e é titular da carteira profissional e quem produz informação patrocinada por marcas e não deve ter título profissional. O entendimento é que qualquer atividade que resulta na divulgação de marcas e serviços é incompatível com o título profissional.

Podem continuar a ser chamados jornalistas mesmo não tendo carteira profissional? Entre as muitas questões que se colocam há um ponto que não deve suscitar dúvidas: mais importante do que a designação de jornalista ou produtor de conteúdos é ter a certeza que o leitor sabe o que está a ler.

 

Procuram-se jornalistas para equipas de content marketing
 

Imagem por Andreia Dias com recurso Freepik

Blandina Costa
Conheça o autor / Blandina Costa

Editora e diretora-geral da Webtexto.